Pedro de Luna, o autor da biografia do Planet Hemp, conta como foi construir o livro

Pedro de Luna, o autor da biografia do Planet Hemp, conta como foi construir o livro

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terça-feira, 18 dezembro 2018
Culturall

Por Luck Veloso e André Luiz Costa Pedro de Luna é um incansável escritor e jornalista que, ao longo dos anos, vem se dedicando a várias causas que têm como linha principal a música autoral e muitas vezes independente do Brasil. Seu trabalho mais recente é a biografia do Planet Hemp, uma das bandas mais polêmicas do país. Batemos um papo exclusivo com o autor, que nos falou dos vários aspectos sobre a construção da obra. Leia e compartilhe com os amigos:

 

RCFM – Como veio a ideia de fazer um livro sobre a banda mais polêmica do Brasil,

Desde o meu primeiro livro, “Niterói Rock Underground 1990-2010”, que o Planet Hemp já marcava presença, tanto com fotos, flyers e histórias cruzadas com a galera de Niterói , que era muito envolvida com a Hemp Family, como Black Alien, Speed, André Amaral, Simon, Leo Costa e tantos outros que faziam a cena de Niterói e São Gonçalo, e integravam a crew do Hemp Family e Planet Hemp.

Então o Planet sempre esteve ali, orbitando o entorno desses meus livros, que foram vários, sobre o rock independente brasileiro. E aí, em 2017, depois de fazer o livro “Brodagens”, que também falava muito sobre esse período, do final dos anos 1980 e primeira metade dos anos 1990, quando há uma formação ali nos anos 80 do que seria a geração de jornalistas, fotógrafos, DJs, bandas, fanzineiros  e tudo o mais dos anos 1990, isso tudo ficou muito evidente no livro Brodagens  e me despertou a vontade de fazer uma biografia do Planet Hemp.

Eu sequer tinha atentado na época, que se o livro saísse em 2018 iria coroar os 25 anos da banda. E mais do que isso, vem numa hora inclusive muito pertinente, tanto porque a gente vê uma ascensão do conservadorismo, do fascismo, da repressão, da censura, da TFP (Tradição, Família e Pátria), isso tanto no Brasil quanto no mundo, então, como o Planet Hemp é uma banda que lutou e luta, não só pela legalização da maconha, mas também pela liberdade de expressão e pagou um preço caro, inclusive sendo presa, acho que o Planet Hemp ganhar uma biografia só contribui para esse debate, em relação à censura, a liberdade da arte, a legalização da maconha, num período onde a gente vê a maconha sendo cada vez mais tolerada no mundo, crescendo a discussão em torno, não só do uso recreativo mas medicinal e do seus benefícios para a economia, gerando emprego e renda. Então, acho que o Planet Hemp já estava ali, sempre havia uma pulguinha atrás da orelha. Até que, enfim, chegou a hora de sair um livro só sobre a banda, que no fim das contas, também fala de uma cena toda, porque o Planet Hemp não estava sozinho, ele fazia parte de um contexto muito maior, mas ele está muito bem recebido. Tô muito feliz, as pessoas estão adorando.

 

 

RCFM – Conta um pouco sobre o teu processo de escrita. Além das pesquisas, há um enorme tempo investido em ouvir pessoas e desvendar fatos, acredito.

Sobre o processo de pesquisa, sim, sim, teve muita coisa que eu queria muito ter encontrado, em termos de imagens, fotos, pra esse livro e para livros futuros também, que eu pretendo fazer uma exposição, produto audiovisual e outras coisas, mas uma das coisas que eu lamento muito de não ter nenhuma foto, foi do show do Planet Hemp no Abril Pro Rock de 1995, quando eles abriram para o Chico Science e Nação Zumbi.

Esse show foi muito emblemático, não só por ter sido curto o show do Planet Hemp, mas porque eles estavam ali no camarim, quando a Sony Music chegou, com uma caixinha do CD “Usuário”. Foi a primeira vez que eles viram o CD pronto, então você imagina a emoção da banda, antes de subir ao palco, vendo o disco, mostrando para o Fábio Massari, da MTV, para o Carlos Eduardo Miranda, para toda aquela galera que tava ali. Então, esse em especial, é um evento que eu gostaria muito de ter tido fotos, mas infelizmente eu não consegui nenhuma. Tiveram outros, claro, eu espero que a partir do momento que a biografia comece a circular, outras pessoas que tenham fotos e registros históricos do Planet, possam colaborar, enviando esse material pra mim e engrossando esse lindo e precioso acervo que eu montei sobre o Planet Hemp.

 

 

RCFM – Como o Planet Hemp influenciou bandas que vieram após a década de 1990?

Bom, não é segredo para ninguém que o Planet Hemp, formado no finalzinho de 1992 e início de 1993, na verdade, já com a formação que seria a primeira, Skunk, Marcelo D2, Bacalhau, Formigão e Rafael (Crespo), essa em 1993, a banda praticamente foi formada em 15 dias, quando o D2 marcou um show no Garage e eles tiveram duas semanas para ensaiar, e aí, nessas duas semanas houve dois ensaios e fluíram seis músicas.

E o Planet Hemp, naquela época, não tinha muito como se informar, não existia internet, a TV a cabo era muito incipiente, a própria MTV nos anos 1990 era em UHF, então uma das fontes de informação eram as revistas importadas, rádios e alguns programas de TV. E o Planet Hemp sempre se inspirou muito em Beastie Boys e em Cypress Hill, então, o Planet, quando trouxe essas influências e veio a influenciar outras bandas, eles influenciaram tanto nessa fusão de ritmos, que foi uma característica dos anos 1990, no caso do Planet o rap com o rock, e influenciou nessa questão da formação, sendo a primeira banda que oficialmente incorporou o DJ como um integrante, como um musicista de fato, no início o DJ Rodrigues, depois o DJ Zé Gonzales, o Zegon, mas também passaram por suas fileiras o DJ Nuts e tantos outros. E acho que também nessa questão dos dois vocalistas, que é uma coisa também de Beastie Boys e Cypress Hill. Até então você tinha vocalistas nos anos 1980, aquele cara preso, tocando guitarra ou baixo, preso no microfone ali, no pedestal. E quando você coloca não só um, mas dois vocalistas e futuramente, o Planet Hemp chegaria a ter três, com o Black Alien também, cantando, sem nada na mão, só o microfone, pulando pra lá e pra cá, isso trouxe uma outra dinâmica, e uma outra consistência em termos de som, porque você tinha três vozes diferentes, cantando as letras, então as influências do Planet são muitas e essas são algumas delas.

RCFM – O que vc achou do filme Legalize Já, principalmente do trabalho dos atores principais, Ícaro Silva e Renato Góes?

Acho o filme Legalize Já muito bom, e é totalmente a cara do Planet Hemp pelo próprio fato de ter levado 9 anos para ficar pronto. A gente não pode esquecer que tem um DVD que o Planet Hemp gravou, que houve problemas, porque foram usadas imagens no telão e depois houve uma questão de direitos autorais pelo uso e o DVD nunca ficou pronto, então esse filme, que levou 9 anos para ficar pronto, talvez tenha demorado por algum motivo que só o cara lá de cima vai saber. Porque é um filme que chegou no fim das contas, em um ano muito interessante, um ano de muito debate, muitos ânimos acirrados, inclusive por conta das eleições, e ele vem trazendo uma época do Rio de Janeiro de uma polícia muito violenta, sempre oprimindo os mais pobres, os camelôs, os trabalhadores, os negros, os artistas… É um filme que mostra problemas que, infelizmente, ainda são muito atuais não é? Questões muito atuais também envolvendo a juventude brasileira, então acho que é um filme muito bacana e o Renato Góes e o Ícaro (Silva) incorporaram muito bem os personagens do Marcelo D2 e do Skunk. Acho que o Planet Hemp, quem assistiu da banda, também gostou bastante, apesar de ser um projeto bastante do Marcelo, que também fez o filme “Amar é Para os Fortes”, um média metragem. Então, acho que é um filme que vem a somar nesses 25 anos do Planet, com o livro, filme e também, o relançamento do disco Usuário em Fita Cassete, pela Deck Disc Polysom, e mais um monte de coisas que a gente tá imaginando que vão acontecer, agora em 2019, ainda celebrando os 25 anos da banda, que vão até julho de 2019, porque o primeiro show do Planet Hemp foi no Garage, no dia 24 de julho de 1993. Então, até 24 de julho de 2019, a gente tá comemorando os 25 anos da banda.

 

 

RCFM – Pedro, pra gente encerrar, pedimos um recado seu, dessa vez, para pessoas que, assim como você, sonham em mergulhar na história de alguém, seja uma banda, personagem, pessoa e decifrar todos os acontecimentos da vida e relatar em livro, como você brilhantemente fez.

Acho que um recado final, para todo mundo que sonha em mergulhar na história de alguém, seja uma banda, um personagem, e aí eu digo com alguma autoridade, já que o Planet Hemp não é a minha primeira biografia, já fiz a biografia do quadrinista Marcatti, a biografia do Chico Alencar, já fiz a biografia de um pintor angolano Felipe Salvador e tantas outras, eu acho que, em primeiro lugar, coragem, porque é um processo que suga muito da sua energia. A gente fica muito ansioso, esperando retornos que muitas vezes não vêm, tentando conseguir entrevistas, números de telefones… Infelizmente, pessoas que a gente achava que iriam prontamente colaborar te enrolam, não respondem, então, é se preparar para decepções desse tipo. Durante esses dois anos fazendo o livro do Planet Hemp, não foram poucas as vezes que eu fui dormir com a história na minha cabeça e foi muito difícil descansar, relaxar e dormir de fato, porque aquilo fica remoendo e você fica com um monte de perguntas e pontos de interrogação constantes. Muitas vezes eu acordava muito mais cedo e já sentava no computador pra continuar escrevendo, porque há uma história que você quer cada vez mais ir a fundo e entender cada vez mais detalhes. Então, eu digo isso, por exemplo, no episódio do velório do Skunk. Quando ele morreu, apesar de eu não ter ido ao enterro, a riqueza de detalhes, dos depoimentos foi tão grande que eu muitas vezes me vi ali no cemitério, junto, de todos aqueles amigos, e um dos depoimentos, inclusive, muito simbólico, diz isso, que apesar de ter sido o enterro do Skunk, um cara super musical, foi um velório no mais completo silencio, tamanha a tristeza que as pessoas estavam.

Pra finalizar, qualquer pessoa que queira mergulhar nessa aventura de fazer uma biografia de alguém, tem que estar preparada para muitas coisas, inclusive decepções, surpresas, para ouvir o que não esperava ou mais do que gostaria e ter isenção e idoneidade e apurar tudo com responsabilidade, ouvindo todos os pontos de vista, ouvindo todas as fontes, mas como eu falei, o Planet Hemp é uma banda cheia de contradições, então é muito importante ouvir todas as versões, de todo mundo envolvido, para que o próprio leitor depois, tire suas próprias conclusões.

 

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