Garage Sounds prova que há esperança pra cena Carioca

Garage Sounds prova que há esperança pra cena Carioca

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sábado, 13 julho 2019
Culturall

Por Renan Esteves (texto e fotos) – Há muito tempo que o Rio de Janeiro precisava de um festival que desse uma dinâmica para o que existe de interessante acontecendo na cena carioca, da mesma forma que ocorre em outras praças, como Goiânia e Brasília, com os longevos Goiânia Noise e Porão do Rock, respectivamente. A primeira edição do Garage Sounds na cidade cumpriu bem sua finalidade, que foi se divertir, ouvir boas música e incentivar as bandas que estão começando agora. Lembrando que o Garage Sounds ainda passará por mais 10 locais, encerrando sua edição 2019 no mês de setembro.

Acabei não chegando a tempo de escutar as duas primeiras atrações da noite: Join the Dance e Ladrão, mas a partir de agora vou definir o que foram as apresentações das outras 14 bandas presentes na longa noite do Garage Sounds, realizado no HUB.

Tamuya Thrash Tribe

A estrutura do festival fez com que os shows fossem emendados um após o outro, sem descanso, num revezamento entre dois palcos, um do lado do outro.

Unindo força e vigor num Thrash Metal que lembra bastante a fase Roots do Sepultura, os cariocas do Tamuya Thrash Tribe começaram o show com a seguinte mensagem: “Bolsonaro não nos representa”! A partir daí, saberíamos como seria o teor da apresentação. Destaque para as canções: “Brado de Xangô”, com direito a um colar abençoado pelos orixás usado pelo vocalista Luciano Vassan e “Senzala/Favela”. Apesar do curto tempo, todo repertório foi tirado do seu mais recente disco, ”The Last of the Guaranis”, lançado em 2016. Fizeram uma performance digna de uma banda que ainda tem muito a acrescentar no cenário Metal brasileiro.

Logo depois, no Palco B, tivemos a Nove Zero Nove, conhecida do público carioca, com dois trabalhos no currículo: o disco “Blindado (2016)” e o EP “Nove Zero Nove (2013)”. Confesso que na primeira vez que os ouvi, há alguns anos, no Imperator, não curti o som da banda, de imediato. O tempo passa e, conforme mais ouvidas, vamos nos acostumando com a sonoridade. A banda apresentou sua nova formação: a vocalista Maria Mergener e o guitarrista Fabio Mazzeu. Numa curta pausa, a baixista Eliza Schinner explicou que o rock também é política e que a banda estava orgulhosa em poder dividir o palco com grandes bandas do cenário atual. O setlist foi baseado no disco “Blindado”, com destaque para algumas canções como “Nova Alvorada”, “Cova Rasa” e “Temporal”, com o público chegando aos poucos, que fez questão de cantar muitas canções e pular em outras. Hoje, vejo uma banda mais experiente, que, mesmo com nova formação, fez um show alegre e cativante.

Nove Zero Nove

No Palco A foi a vez de mais peso, dessa vez com os cariocas do Enterro. Fazendo um som que mistura Death com Black Metal, a banda foi responsável pelas primeiras rodas do festival. Houve elogios ao Ladrão, que tocou no mesmo palco horas antes, e a canção “Excommunicated”, do disco de estreia “The Bell of Lerpous” (2011), foi um dos pontos altos do show, com centenas de cabeças balançando. Com Garage no nome, o metal fez bonito nas primeiras atrações da noite, com o Enterro fazendo boa apresentação no festival, destacando-se o vocalista Kafer e os ex-integrantes do Matanza, Osorium e Doneedah (este Matanza Inc), nas guitarras.  Após o Death Metal dos caras, foi a vez do Hardcore do Pavio mostrar suas credenciais sem pedir licença, sob o som de “Manifesto Reaça”, mantendo a fúria do show anterior. Se o Palco B estava bem calmo no início, o Pavio tratou de ser a centelha que faltava para fazer uma apresentação explosiva pelo Garage Sounds. O vocalista Marcelo Prol tratou de entreter o público entre gritos e pulos de um canto a outro. Ainda houve tempo para as participações de Lorraine Quadros, em “Mulheres Fatais”, onde Marcelo pedia mais igualdade e respeito para as mulheres nos dias atuais, e Pascoal, ex-vocalista da Cervical, em “Estado Livre”. Talvez, o Palco B tenha sido diferente para uma banda que se encaixaria melhor no Palco A, onde Enterro e Tamuya Thrash Tribe cantaram anteriormente.

Enterro

Logo após o show do Pavio, foi a vez da Malvina fazer a sua apresentação. Enfrentando problemas no som e sem o vigor das bandas que passaram anteriormente pelo Palco A, Malvina fez uma apresentação fria e os integrantes pareciam inseguros em algumas canções. O repertório da banda de Nova Friburgo foi calcado no seu último disco “Hybrid War”, lançado esse ano, cuja abertura do show foi uma gravação em inglês com trechos de conversa entre o governo norte-americano e a Operação Lava-Jato, antes de começar o show.

Esteban

Um dos pontos altos do Garage Sounds, sem sombra de dúvidas, foi o show que o Esteban Tavares, banda do ex-integrante do Fresno, Rodrigo Tavares fez. Diferente da estética Emocore/Pop Punk que fez sucesso no Brasil na década passada, Rodrigo deu uma mudança na carreira ao investir num som mais voltado para o Indie, com outras influências, como MPB e, em especial, música latina, como Bolero. O Palco B estava mais cheio quando Esteban entrou no palco, sob muitas palmas. Apesar do pouco tempo, Esteban apresentou canções de discos como “Eu, Tu e o Mundo” (2017) e “¡Adios Esteban!” (2013). Teve palmas, mãos levantas e muito romantismo nos 30 minutos de show do músico gaúcho. No repertório não faltaram canções como “Sophia”, a romântica “Noites de Berlim”, “Hoje”, música nova do cantor, e “Sinto Muito Blues”, canção essa que causou delírio nos fãs. No final, o público pediu mais e Rodrigo Tavares foi simpático ao falar que não poderia extrapolar o tempo, para não prejudicar as outras bandas.

Surra

Saindo da calmaria do que foi o show de Esteban Tavares, foi a vez de outra atração bastante esperada pelo público no Palco A. Os paulistas do Surra fizeram uma apresentação impecável e de muito peso no Garage Sounds. Ao começar, quando o vocalista Leo Mesquita disse em tom irreverente: “o Esteban fez um show tão lindo, que sinto muito o que vamos fazer por aqui nesse exato momento, já que somos feios e fazemos um som voltado para gente feia”. Claro que num tom engraçado e sem intenção alguma de ofender ninguém na plateia. Direto ao ponto, houve várias rodas de dança no curto tempo que o Surra tocou no Palco A. Foi um dos shows mais intensos da noite.

Desculpem o trocadilho, mas parabéns aos envolvidos! Destaque para as faixas “Escorrendo pelo Ralo”, “Caso Isolado”, com o público cantando em bom tom, “Peso Morto” e, claro, “Tamo na Merda” – nunca uma música soou tão atual em nosso país, a ponto de rir para não chorar, e “Parabéns aos Envolvidos”, que trouxe muita fúria causada pela roda nota 10 do Garage Sounds – coisa que até agora nenhuma banda do Palco A foi capaz de fazer.

Hateen

Com as principais bandas começando a tocar, foi a vez do Hateen fazer sua apresentação no Palco B.  O show foi baseado no seu DVD ao vivo, gravado no antigo Hangar 110, em São Paulo, que hoje não existe mais. Hateen começa com “Não Vai Ter Mais Tristeza Aqui”, com o espaço mais cheio cantando cada uma de suas canções. O interessante é que mesmo não sendo exímio conhecedor da banda, você acaba lembrando de cada canção, como se você já conhecesse de anos anteriores. Claro que tudo isso se deve à década passada, onde a banda chegou ao seu auge por meio dos discos “Procedimentos de Emergência” (2006) e “Obrigado Tempestade” (2011). É admirável o que fazem dentro do palco, que é divertir e emocionar seu público diante dos seus 25 anos de carreira. Ainda tivemos os sucessos “Quem Já Perdeu um Sonho Aqui? ” e “1997” de forma consecutiva e com “Obrigado Tempestade” encerrando os trabalhos de um show nostálgico e sempre marcante para seus fãs.

Zander

Confesso a vocês que assistir a 16 shows num curto espaço de tempo e, ainda no ápice da noite, não é uma tarefa fácil. Com o cansaço tomando conta do corpo, a falta de atenção passa a ser uma premissa nessa hora. Contudo, Zander fez um show animado no Palco A, onde novamente os fãs presentes não decepcionaram. Eu demorei a pegar o feeling da banda logo de início, mesmo tendo escutado toda sua discografia anteriormente. Foi um show animado e divertido, que parecia que estava num cenário de novela Malhação. A reta final foi a grande sacada pro show engrenar: “Bastian Contra o Nada”, “Meia Noite”, “Bandida e Malvista” e a grudenta “Auto Falantes”, que encerrou a apresentação dos cariocas.

Molho Negro

De volta ao Palco B, a atração mais distante geograficamente dentre todas as outras 15 bandas, os paraenses do Molho Negro fizeram um show frenético do início ao fim. A banda, que tinha uma grande expectativa em sua apresentação, não decepcionou na pequena oportunidade que teve para demonstrar serviço. Pra quem não lembra, o grupo teve seu pequeno momento de fama ao tocar na edição 2019 do Lollapalooza Brasil. Fazendo um bom rock de garagem, com influências que vão de Nirvana a Jon Spencer Blues Explosion (agora peguei pesado, né?), o vocalista João Lemos por vezes lembra Jack White no visual. Com rock pegajoso e boas nortistas foram conquistando o público aos poucos. No setlist teve espaço para os hits “Souza Cruz”, “Reacionário” e “Fã do Nirvana”. Rock divertido e direto ao ponto que agradou aos fãs e os não fãs da banda.

Krisiun

Com 28 anos de carreira e 11 álbuns de estúdio, os gaúchos do Krisiun dispensam comentários. É interessante como a banda se sente à vontade quando toca no Rio de Janeiro. Vindo de uma turnê pela Europa, Oceania e Ásia, o grupo voltou ao Brasil para ser uma das principais atrações desse Garage Sounds – e não fez feio. O vocalista Alex Camargo sempre faz questão de frisar que é importante viver do que faz e estar sempre tocando para seus fãs, fortalecendo a cena, algo que ele afirma não ter preço. O show pode não ter a mesma intensidade que o Surra fez nesse mesmo Palco A, mas não fica atrás. A comunicação entre banda e público funciona, e a brutalidade musical que sai por meio desse power trio é de se destacar sempre que pisam em terras cariocas. Tem bateção de cabeça e pequenas rodas no meio do salão. Músicas como “Slaying Steel” e “Vengeance’s Revelation” são os destaques dessa apresentação de bom nível, ainda que nem tão apoteótica, se comparado ao que fizeram no Circo Voador, em maio passado – tanto que Alex conversa com a produção perguntando quanto tempo resta para completar o show. A conhecida “Ace of Spades” é o desfecho final para uma boa apresentação de um dos nomes mais marcantes do metal nacional, para alegria de todos.

Gloria

Com um público mais reduzido, os paulistas do Gloria trouxeram seu metalcore para o Palco B do Garage Sounds. Mesmo pra quem não é grande apreciador de sons mais melódicos, na linha de Bring Me The Horizon e Bullet For My Valentine, o Gloria mostrou que tem uma boa base de fãs, e isso é inegável. Ocorreram alguns problemas no som durante as primeiras canções, mas que foram reparados a medida que o show avançava. Unindo melodia com peso, o vocalista Mi Vieira lidera a banda alternando entre suas canções antigas e as do seu mais novo trabalho: “Acima do Céu”, lançado esse ano. Há espaço ainda para “Bicho do Mato” e as conhecidas “Vai Pagar Caro Por Me Conhecer” e “Minha Paz”, do seu homônimo lançado em 2009. “Voa” e 10.000 Mil Maneiras, Pt.III” são novidades que agradam o públcio, que responde com algumas pequenas rodas ao longo do show. Para os fãs, foi um show ótimo; para os que não conhecem a banda, soa como algo estranho que precisa de tempo para ser melhor assimilado.

Psilocibina

Com o público praticamente reduzido, foi a vez do Psilocibina tocar seu Rock Psicodélico Intrumental no Palco A. Como já tinha visto seu show no Hocus Pocus, maio passado, abrindo para os suecos do Graveyard, a expectativa de vê-los novamente não foi tão grande, apesar da curiosidade de como se sairiam nesse festival. Infelizmente, por conta do Hateen e Gloria terem passado um pouco do horário, a apresentação dos cariocas capitaneados pelo selo Abraxas acabou não sendo das melhores, muito por conta do pouco tempo. Mostrando seu único disco de estúdio, o homônimo lançado ano passado, o pouco tempo mostrou poucas canções, como “Psilocibina” e “LSD”. Não deu pra tocar “Na Selva Densa”, faixa com uma pegada Novos Baianos misturada com Jimi Hendrix, fica para a próxima!

O encerramento ficou nas mãos do New Day Rising, que dedicou seu show ao povo que mora na Zona Norte e Baixada Fluminense e aos que ficaram até o final para prestigiá-los. Com seu dreadlock que faz lembrar Marcelo Falcão, não faltou empenho e atitude por parte do vocalista Renato Rasta, que pulava, batia cabeça e até se jogou nos braços do público, num dos grandes momentos do show, apesar de não ter muita gente pra testemunhar isso.


New Day Rising

Apesar do texto grande, minhas considerações finais vão para o espaço do HUB, que apesar de longe da Lapa, onde acontece a maioria dos eventos do centro da cidade, o lugar cumpriu bem sua finalidade, lembrando muito o Circo Voador no quesito espaço. Foi fácil chegar na ida, principalmente por conta do VLT, mas com o festival terminando às 03 da manhã, o único jeito foi sair de táxi ou Uber e afins. Com o Rio sofrendo de falta de espaço, infelizmente o jeito é ter que optar por lugares mais em conta para o bolso, como o citado HUB. Quem sabe nas futuras edições em terras cariocas, o Garage Sounds não passa para sábado ou domingo, onde a questão horário/transporte público possa ser mais utilizada?

Todas as bandas se dedicaram no palco, apesar de uma dificuldade ou outra. Conforme mencionado no início do texto, faltava um festival de alto nível para o rock nacional no Rio de Janeiro. Com a expansão do Garage Sounds em outros estados, esse sonho tornou-se possível, além de ser uma grande oportunidade para assistirmos a nomes veteranos no rock brazuca e a novas bandas que buscam seu lugar ao sol, num cenário que nem sempre todas conseguem. O cunho político ficou muito aflorado na maioria das bandas, principalmente as de Hardcore e Metal. Diferente da década passada, em que não tínhamos o viés político tão em voga, a década atual nos mostra o tenso momento em que o país vive, e isso a música procura mostrar dentro dos seus discursos. No mais, vida longa ao Garage Sounds e até a próxima edição!

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