Direto ao ponto, Dead Fish apresenta “Ponto Cego” com show intenso no Rio

Direto ao ponto, Dead Fish apresenta “Ponto Cego” com show intenso no Rio

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sábado, 10 agosto 2019
Culturall
Dead Fish

Por Renan Esteves (texto e fotos) –

Quem foi ao Circo Voador na última sexta-feira (09/08) presenciou uma grande noite voltada ao Hardcore/Crossover Thrash com três bandas excepcionais do momento: Dead Fish, Surra e Black Pantera.

Responsável por ser a primeira banda a abrir os trabalhos da noite, o Black Pantera contagiou o público pelo que fez dentro do Circo Voador. Com cinco anos de carreira, os mineiros de Uberaba possuem dois discos de estúdio: “Black Pantera (2015)” e “Agressão (2018)”, tendo participado de festivais como Porão do Rock e o Download Festival da França. Com influências que vão do Funk da fase inicial dos Red Hot Chili Peppers e Living Colour ao Thrash Metal do Pantera, a banda fez um show cativante dentro das suas possibilidades. Faixas como “Bota pra Fuder” e “Ratatatá” mostraram as credenciais do power trio com direito as primeiras rodas do evento. Destaques também para “Punk Rock Nigga Roll”, “Taca o Foda-se” e uma versão de “A Carne”, de Marcelo Yuka, Seu Jorge e Wilson Capellette, conhecida pela voz de Elza Soares. A banda pode não ter uma técnica apurada, já que tem pouco tempo de estrada, mas a força do trio prevaleceu para a execução de uma boa apresentação, e isso foi mais do que suficiente.

Black Pantera

Logo depois, sem pedir licença, foi a vez do Surra assumir as rédeas do Circo Voador. Diferente do que fizeram no Garage Sounds (relembre aqui), que rolou em julho passado, os paulistas tocaram para uma plateia maior. Sob as ordens de Leeo Mesquita, o vocalista disse em bom tom: “Façam uma roda tão rápida que vire um vórtex e leve todo mundo para a casa do caralho!”. Era o início de uma apresentação vigorosa e explosiva, como nas canções “Anestesia” e “Tamo na Merda”, com direito a vários stage diving.

Surra

Outro momento de grande glória de seu show foi a reta final com “Virou Brasil” e “Caso isolado”, quando roloava um revezamento entre Leeo Mesquita e o baixista e também vocalista Guilherme Elias, e a banda se sentindo à vontade, como se fossem cariocas – os caras são de Santos (SP). Leeo dá uma segurada e explica o momento caótico que o país vive e que tudo isso precisa mudar antes que seja tarde demais. Em “Parabéns aos Envolvidos”, – música nunca antes na história do país a servir de desabafo a tudo que estaria prestes a acontecer, num conselho do tipo: eu te avisei! – um imenso espiral acontece dentro do Circo Voador, com todos se divertindo e se estapeando num verdadeiro inferno a céu aberto, no melhor estilo Slayer de ser. Por fim, Surra fez um show divertido, enérgico e sem firulas, como dita o Crossover Thrash. Se todo mês rolasse um show do Surra em terras cariocas, a galera não reclamaria de jeito nenhum.

Surra

Sabe aquele amigo de longa data que você não vê a hora de encontra-lo novamente e botar o papo em dia? Esse alguém se chama Dead Fish, que voltou ao Rio de janeiro para celebrar seus 28 anos de estrada e seu mais recente trabalho: “Ponto Cego”, lançado em maio passado. O show começa quente com a faixa “Asfalto”, do seu seu sexto disco “Contra Todos”, lançado em 2009. Porém, a grande expectativa rolava em torno das faixas de “Ponto Cego”. E assim vimos na dobradinha “Sangue nas Mãos” e “Não Termina Assim”, que funcionam muito bem no show.

Como disseram numa entrevista ao site Tenho Mais Discos que Amigos: “Ponto Cego é um disco em que cada uma das 14 faixas funciona como um capítulo de um livro, diante do cenário caótico em que o Brasil se encontra, principalmente na faixa ‘Sangue nas Mãos’, que começa com a mensagem: ‘com Supremo e com tudo’, fazendo se abrir a ferida, cantada na voz certeira de Rodrigo Lima”.

Dead Fish

Como era de se esperar, a apresentação conta com muitas rodas e stage diving a toda hora. Durante cada mergulho dos fãs em direção ao chão, Rodrigo pede para o pessoal segurar a onda, para que ninguém venha a se machucar, mas que infelizmente acaba acontecendo, com um rapaz tendo que ser retirado pelo bombeiro na música “Proprietários do Terceiro Mundo”. O momento de grande emoção vem com o convite de Rodrigo Lima na faixa “Mulheres Negras”, do seu segundo disco “Sonho Médio (1998), no qual três garotas sobem ao palco para tocar a canção, com Rodrigo no fundo do palco observando tudo e se recuperando de um início pau na moleira diante de um Dead Fish inspirado e afiado.

Dead Fish

Seu oitavo disco, “Ponto Cego”, foi bem recebido pelo público no Circo. Versando sobre temas polêmicos diante de um Brasil fora dos trilhos e com um Presidente da República falando pérola atrás de pérola, Rodrigo Lima dedica esse álbum ao Chefe da nação sob os gritos de “Ei, Bolsonaro, vtnc!”, algo corriqueiro, que aconteceu tanto no show do Black Pantera quanto no show do Surra. Na canção “Doutrina do Choque”, o baixo de Igor Modesto explode para a voz devoradora de Rodrigo narrar mais um capítulo de “Ponto Cego”, cuja faixa foi inspirada no livro “A Doutrina do Choque: a Ascensão do Capitalismo de Desastre”, da ativista canadense Noemi Klein.

Dead Fish

Com muitas rodas, moshes e mergulhos do palco para os braços do povo, a galera se divertia com a mensagem de protesto dos capixabas numa gritaria ensandecida, como na manjada “Queda Livre”, hino do disco “Zero e Um”, que ajudou a tornar a banda famosa em 2004, principalmente com grande ajuda da MTV. De longe, se percebia a áurea de alegria com todos se divertindo do início ao fim. Rodrigo novamente volta a discursar e cita que a luta não pode parar, principalmente por estarmos perdendo direitos fundamentais e pelo esfacelamento dos movimentos progressistas ao redor mundo, antes de anunciar “A Inevitável Mudança”.

A reta final, com “Tão Iguais” e “Venceremos”, mostra as facetas do guitarrista Ric Mastria, se esforçando como pode, mesmo com pequenos problemas técnicos que aconteceram ao longo da noite, mas que nada comprometeu o andamento do show. “Sonho Médio”, “Bem-Vindo ao Clube” e “Afasia”, músicas das antigas e cantadas a plenos pulmões pelo público, foram a cereja do bolo para o término. Aliás, é muito saudável ver uma banda como essa cada vez mais viva, num cenário em que o rock não desfruta mais do prestígio de antes. Vida longa ao Dead Fish!

Dead Fish

Setlist:

Asfalto

Sangue nas Mãos

Não Termina Assim

Proprietários do Terceiro Mundo

Selfegofactóide

Sombras da Caverna

Messias

Mulheres Negras

Doutrina do Choque

Rei de Açúcar

Fragmento

MST

SUV’s (Stupids Utility Vehicle)

Jogojogo

Zero Um

Queda Livre

A Inevitável Mudança

Autonomia

Descartáveis

A Urgência

Tão Iguais

Venceremos

Receita pro Fracasso

Sonho Médio

Bem-Vindo ao Clube

Afasia

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