Ivan Lins, Chucho Valdés e Irakere transformam o Villa-Lobos num baile afro-cubano, na última noite do Montreux

Ivan Lins, Chucho Valdés e Irakere transformam o Villa-Lobos num baile afro-cubano, na última noite do Montreux

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segunda-feira, 10 junho 2019
Culturall

Por Renan Esteves – Infelizmente chegamos ao último dia de shows na primeira edição do Rio Montreux Jazz Festival, no Pier Mauá. Pelo Palco Tom Jobim, tivemos o show do instrumentista Carlos Malta com o Pife Muderno. A oportunidade de se ver convidados participando de shows com outros é sempre boa, principalmente pelo intercâmbio musical entre eles. O sexteto Pife Muderno é inspirado nas bandas de pífano do Nordeste, que mistura elementos tradicionais com linguagens contemporâneas, seja do tribal ao experimental. Em seus 25 anos de carreira, já tocaram em lugares como o Carnegie Hall, em Nova York, e Forbidden City Concert Hall, em Pequim, concerto que virou o disco duplo “Ao Vivo na China”. O sexteto é formado por Carlos Malta (Flautas /Sax), Andrea Ernest Dias (Flautas), Durval Pereira (Zabumba), Oscar Bolão (Triângulo /caixa / pratos), Marcos Suzano (Pandeiro) e Bernardo Aguiar (Pandeiro).

Mostrando um show vigoroso e agradável de se ver, o sexteto foi mostrando as variedades musicais de cada um dos seis integrantes. Apesar do Palco Tom Jobim vazio, o público presente parecia que estava num carnaval fora de época, aquele mais voltado para os desfiles de rua que mostrava um saudosismo lá dos anos 60 e 70. Percebi muitas crianças no festival, o que criou um clima propício para que todos pudessem cantar, dançar, mesmo que de forma comedida, e pular sem parar – principalmente os pequenos presentes no espetáculo. O momento especial do show ficou por conta do bis, quando todos os integrantes desceram do palco e começaram a se apresentar na frente da plateia, o que fez todo mundo sair do fundo da sala e formar uma pequena roda.

Logo depois, já no Palco Ary Barroso, tivemos A Guitarra e o Tambor, formado pelos músicos Davi Moraes, Jr Tostoi e Pedro Baby e pelos percussionistas Cara de Cobra, Léo Reis, Marquinhos Freitas e Toy. Antes de começar, Davi Moraes (filho do cantor Moraes Moreira) explica o contexto do grupo fazendo uma breve explicação sobre o carnaval do Brasil, sobretudo o de Salvador, na década de 50, quando se tocava apenas música instrumental e, como não deveria deixar de ser, agradeceu à Marco Mazzola, produtor do evento, por lhe confiar a oportunidade de estar nesse festival.

Uma das primeiras músicas tocadas foi a saudosa “Na Cadência do Samba”, que muitos perceberam cantando aquele velho refrão: “Que bonito é!”, que aliás fez sucesso no famoso Canal 100, um cinejornal criado em 1957 por Carlos Niemeyer. “Menino do Rio” foi mais uma ode à Cidade Maravilhosa, entoada por muitos presentes no Palco Ary Barroso e com destaque para Pedro Baby, filho de Baby do Brasil, se destacando nos solos de guitarra. As percussões ditaram bem o ritmo da apresentação, com aquele toque dos grupos baianos como Timbalada e Olodum. O final contou com um mix de “I Feel Good”, de James Brown e do “Frevo Vassourinhas”, famosa faixa do Carnaval de Pernambuco. Já na reta final, quase na hora do show de John Scofield, a multidão que estava presente para acompanhar A Guitarra e o Tambor transformou o Palco Ary Barroso num grande carnaval fora de época, como se o Rio fosse Recife.

Pelo Palco Tom Jobim, o norte-americano John Scofield com sua banda Combo 66 apresentou um Jazz de altíssima qualidade. Nome inovador da guitarra jazz moderna, sua banda é formada por Gerard Clayton, no piano, Bill Stewart, na bateria, e Vincent Archer, no baixo. Para início de conversa, não conhecia o trabalho de John Scofield, porém o que ele fez nessa última noite de apresentações no Palco Tom Jobim foi algo pra se guardar na memória ou em algum lugar que você fosse capaz de guardar suas lembranças. Por exemplo, o pianista Gerard Clayton deixa o público à vontade com suas habilidades a frente de dois pianos, alternando entre um e outro. Tem situações que Scofield deixa seus músicos assumirem o controle da situação, como Vincent Archer, no baixo acústico, ou Bill Stewart, na bateria. O baterista Bill Stewart parece ser o apadrinhado de John Scofield, rasgando elogios às suas performances no piano ou falando dele para o público, na hora em que anuncia uma canção nova de seu repertório criada pelo próprio baterista, que se chama “Fuck You, Donald!”, uma singela homenagem jazzística ao Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o que causa risos no Palco Tom Jobim.

No último show do festival, foi a vez da parceria Brasil Cuba: Ivan Lins, Chucho Valdés e Irakere tocar no Palco Villa-Lobos. Ivan Lins é conhecido por suas inúmeras gravações ao redor do mundo, dentro dos seus 50 anos de carreira. Já o pianista Chucho Valdés é fundador da banda Irakere, que tem um Grammy de Melhor Gravação Latina. O grupo utiliza vários instrumentos de percussão como batá, abakua, arara tambores, xequerê, maracas, claves, campana, bongo, congas e güiro.

O show começa com todos os membros do Irakere a postos sob o batuque de um dos percussionistas. O ritmo do som dos cubanos já se faz presente, seguido pela orquestra de saxofones e trompetes na agradável noite do Palco Villa-Lobos. De repente, surge Chucho Valdés, cumprimentando o público e apresentando toda sua banda, na verdade ex-banda, mas que volta e meia ainda se apresenta com ele. Chucho Valdés toma seu lugar no piano e começa sua apresentação ao lado do Irakere tocando “Lorena’s Tango”. Mesmo com o público ansioso para ver Ivan Lins, os cubanos capricham no seu Afro-Jazz Cubano entre tambores, saxofones e a genialidade no piano de Chucho Valdés. Confesso que fiquei mais impressionado com o show de Chucho que com Ivan. Chucho dá uma pausa e convida ao palco Ivan Lins, que abre seu repertório com o Pout-Pourri “Lua Soberana/Confins”, canções essas que fizeram a cabeça dos mais antigos na década de 90, quando foi trilha sonora da novela da Globo “Renascer”, tudo isso regido sob a batuta de Valdés e dos atabaques ao fundo.

E o que dizer de um Ivan Lins bem-humorado ao errar os acordes de “Somos Todos Iguais Nesta Noite”? Pelo menos, dentro desse show de 1 hora e meia conseguimos ser todos iguais movidos pela mesma paixão: a música. Depois do início do baile cubano-brasileiro no Villa Lobos, Ivan Lins fala da experiência de estar tocando novamente no Montreux Jazz, onde se apresentou em 1987 e 1996. Vale frisar que em 1979, pelo festival suíço, houve um espaço reservado à música brasileira, com shows de Elis Regina e Hermeto Pascoal. Ivan comove a plateia ao iniciar “Começar de Novo”, dessa vez com o convidado Mario Manga, parceiro de longa data do músico carioca. Saímos da emoção direto para a explosão em “Dinorah, Dinorah!”, onde Irakere torna-se o suporte fundamental para começar mais uma dança afro-cubana pelo Villa-Lobos. Numa plateia repleta de pessoas com mais de 40 anos, o povo não sente vergonha e se joga na dança meio que tímida.

Mestre Chucho tira um coelho da cartola num medley de “Prelude 9”, de Chopin emendada com “Insensatez”, de Tom Jobim, num momento de bastante emoção. Chucho Valdés e banda saem do palco para dar entrada ao tecladista Marco Brito. Com outro hit de novela, “Lembra de Mim”, Ivan Lins, Mario Manga e Marco Brito tocam nos corações apaixonados das pessoas presentes ao show. Ainda há espaço para um xote misturado com jazz em “Pisa na Fulô”, de João do Vale. O concerto Brasil Cuba aconteceu em 1996, quando Ivan Lins, Chucho e Irakere se apresentaram no Montreux Jazz suíço daquele respectivo ano. Outra observação é que boa parte desse repertório segue fielmente ao que aconteceu nesse evento, inclusive virou um disco ao vivo tempos depois. De volta ao palco, Chucho Valdés e Irakere retomam ao som da calorosa “Ai, Ai, Ai, Ai, AI” para transformar o Rio de Janeiro numa Havana totalmente incendiada pela latinidade dos instrumentos de percussão dos cubanos, uma performance de almanaque do grande mestre Chucho, que termina ovacionado após o fim da música. 

“Vitoriosa” é uma tremenda vitória da música da América Latina pelo que o projeto brasileiro-cubano fez nessa última noite de shows no Pier Mauá, pois mesmo com todas as dificuldades da vida, ainda podemos encontrar algo de maravilhoso dentro dela. O encerramento se dá com o repeteco de “Lua Soberana/Confins”, com o Palco Villa-Lobos se esvaziando com o objetivo de ter colocado ótimas atrações dentro dessas quatro noites de festival.

Enfim, o Rio Montreux Jazz Festival merece os parabéns, já que quase tudo no evento saiu perfeito. O Jazz novamente pôde ter seu espaço dentro do calendário de shows da cidade do Rio de Janeiro. O produtor Marco Mazzola, antes do início do show do John Scofield, disse que foi uma luta de 20 anos para trazer o festival para o Rio de Janeiro e que conseguiu esse feito diante de um ano bem complicado para a cultura no Brasil. De qualquer forma, um até breve, pois 2020 é logo ali!

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