Com alma e coração, Corinne Bailey Rae emociona público na terceira noite do Rio Montreux Jazz Festival

Com alma e coração, Corinne Bailey Rae emociona público na terceira noite do Rio Montreux Jazz Festival

Like
83
0
domingo, 09 junho 2019
Culturall

Por Renan Esteves – O terceiro dia de atrações do Rio Montreux Jazz Festival, no Pier Mauá, foi o mais variado até agora. Tivemos Jazz misturados com ritmos brasileiros e africanos, metal e muito R&B com Pop e Soul.

O primeiro show no Palco Ary Barroso foi o Ricardo Herz Trio. Com influência de Dominguinhos e Luiz Gonzaga, o violinista mistura música brasileira com ritmos da África, também passando pelo Jazz. Em uma de suas canções, “Gira Gira”, Ricardo Herz explica que a faixa é uma homenagem ao pessoal que fica dançando sem parar no forró. Durante a apresentação, os ótimos músicos Salomão Soares (piano) e Pedro Ito (bateria) exibem suas facetas sob palmas do público ainda chegando ao Ary Barroso.

Em seguida, tivemos o show do Andreas Kisser e seus convidados apresentando o espetáculo “Instrumental Acoustic Metal”. Os amantes do Metal foram pegos de surpresa pela morte repentina do cantor André Matos (Angra, Shaman, Viper), vítima de uma parada cardíaca. No início do show, o guitarrista falou sobre a perda e dedicou toda a apresentação ao amigo. Apesar de acústico no nome, o suporte também é dado pelas guitarras de Márcio Sanches, o baixo de Luís Mariutti (que foi integrante do Angra entre 1991 e 2000) e os revezamentos entre violão e guitarra entre Andreas e seu filho, Yohan.

O show começa com o instrumental de “Enter Sandman”, do Metallica, que a galera nota de imediato e começa a cantar junto como se estivesse no show da banda. Repare que a experiência do acústico instrumental foi um grande acerto da produção do evento, dando espaço para outros gêneros divergentes do Jazz no festival. Yohan Kisser se destaca em muitas canções, como em “Iron Man”, em que faz solos de guitarras que não chegam a perfeição de um Tony Iommi, mas garante a diversão do show. Sob os acordes de “Black Dog”, Andreas Kisser dedica a canção a André Matos com destaque para mais um solo de guitarra, dessa vez de Márcio Sanches. O que não falta é espaço para Blask Sabbath e afins, mas dessa fez com a fase solo de Ozzy em “No More Tears”, com Eloy Casagrande detonando na bateria sob os solos de Andreas incorporando Zakk Wylde. Curioso que tanto Luís Mariutti quando Eloy Casagrande já tocaram com André Matos, sendo o primeiro no Angra e o segundo em sua banda solo.

Há espaço para canções como “Walk” (Pantera), “Symphony of Destruction” (Megadeth) e “Roots Bloody Roots” (Sepultura), esta última para delírio dos fãs. Num momento mais Jazz do show, Andreas Kisser faz uma homenagem a Tony Iommi com uma jam que criou junto com seu filho, chamada “Homage to Iommi”, que ele mesmo considera algo mais limpo das fases tranquilas que o guitarrista do Black Sabbath compôs em sua extensa carreira, com a dupla Andreas/Yohan protagonizando um dos melhores momentos da noite. O encerramento se dá com “Fear of the Dark” (Iron Maiden), servindo de tira gosto para o que veremos em outubro no show dos ingleses no Rock In Rio sob os manjados coros de “ô ô ô ô”. Infelizmente, por conta do tempo, o espetáculo deixou de fora algumas canções previstas no setlist, como “Smoke on the Water” (Deep Purple) e até para um tributo a André Matos com alguma canção do Angra, se quisessem. O público presente ao Palco Ary Barroso foi bem superior comparado ao do Ricardo Herz, inclusive o maior público desse palco que vi até agora, numa noite em que o Jazz emprestou seu espaço para o metal.

Saindo do Metal e entrando no R&B e Soul, Corinne Bailey Rae era a atração mais esperada da noite. Dona de uma voz suave, a inglesa de Leeds é considerada uma das revelações da soul music na década, com dois prêmios Grammy na bagagem. Para se ter a ideia, a canção “Green Aphrodisiac”, do seu último disco “The Heart Speaks in Whispers”foi selecionada pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, para sua playlist de verão – pouca coisa, não é?

Corinne é uma moça muita tímida e ao mesmo tempo simpática, que vai mostrando toda sua desenvoltura durante o show. Ela chega sob o anúncio do guitarrista John McCallum, dizendo que está muito feliz de tocar pela primeira vez no Rio Montreux Jazz Festival. O show começa com “Been to the Moon”, para aplausos do público presente no Palco Villa-Lobos. A apresentação mal começa e o baterista Mikey Wilson mostra todo seu repertório, como em “Closer”, em que faz inúmeros solos para descontrole da plateia. Quando Corinne dedica a próxima canção a todos aqueles que já se apaixonaram pelo melhor amigo, a cantora marca mais um ponto com a plateia. Dessa vez, com o violão na mão, ela faz pose, canta, bate palmas e é bem assessorada pelo guitarrista John McCallum, que capricha nos solos.

Em “Till it Happens to You” tem paradinha e os fãs complementam cantando os trechos restantes, pois é nesse momento que o público começa a dançar sob mais solos de McCallum, que parece hipnotizar a todos. Na música de “Is This Love”, nem parece se tratar do cover que Corinne fez de Bob Marley, mas que muitos conhecem de cor e salteado. Foi nessa versão que a cantora levou um dos seus dois Grammys na categoria melhor performance de R&B, em 2012. O primeiro espasmo da noite se dá com “Paris Nights/New York Mornings”, um delicioso R&B com pitadas de Indie Pop, que faz lembrar cantoras como Norah Jones e Amy Winehouse. “Diving for Hearts” alterna entre intensidade e leveza diante do baterista Mikey Wilson, sempre virtuoso, até mesmo quando não é preciso, e com a admiração do lotado Palco Villa-Lobos.

Sabe quando você não está num dia bom e quer ficar sozinho, na sua e vai se deixando levar pelos pensamentos mais distantes? Nessa hora estamos ouvindo “Do You Ever Think of Me?”, enquanto uns dançam lentamente e outros fecham seus olhos como se estivessem se imaginando em algum lugar. A atuação comovente de Corinne Bailey Rae é nítida e sensacional, tudo bem orquestrado pelo trio formado pelos já citados Mikey Wilson (bateria) e John McCallum (guitarra) mais o tecladista Steve Brown. A música se estende bem mais do que os seus cinco minutos da canção original, e o improviso de algumas faixas casa muito bem com o andamento do show.

O ápice da apresentação vem com as próximas canções – todas do seu disco de estreia de mesmo nome da cantora, lançado em 2006. Ao começar pela triste e, ao mesmo tempo, contagiosa “Trouble Sleeping”, que dá vontade de dançar sozinho ou até acompanhado sob a luz do luar. Aliás, a noite no Pier Mauá estava maravilhosa, mesmo diante do frio já em ritmo de inverno. Mas voltando ao show, a banda de apoio outra vez capricha nos solos, mas dessa vez com o backing vocal de John McCallum. Corinne Bailey Rae prolonga a canção com o verso “Just Don’t Say I’m Falling in Love”, incitando todo mundo a cantar junto. É claro que não podia faltar “Put You Records On”, principalmente quando os primeiros acordes de McCallum ressoam no palco, um vedadeiro hino para os amantes da música!

Em “The Skies Will Break”, Corinne não deixa a plateia parada e com seu violão e transforma a reta final num show de música pop. O encerramento se dá com “Like a Star”, um tremendo nó no peito que reduz um pouco da angústia sob os suaves acordes do violão de Corinne. É a hora em que Marco Mazzola, produtor do festival, chega com um buquê de girassóis e entrega nas mãos da cantora. O buquê de girassóis tem sido uma marca constante nos finais de shows com atrações femininas, já que isso também aconteceu nos shows da Pitty com Frejat e de Maria Rita com o Quarteto Jobim. Enfim, faltam palavras para descrever o que foi essa apresentação válida pelo terceiro dia do Rio Montreux Jazz Festival. De qualquer forma, foi um show cantado com alma e coração.

Setlist:

  1. Been to the Moon
  2. Closer
  3. Breathless
  4. Till It Happens to You
  5. Is This Love (Bob Marley cover)
  6. Paris Nights/New York Mornings
  7. Diving for Hearts
  8. Call Me When You Get This
  9. Do You Ever Think of Me?
  10. Trouble Sleeping
  11. Put Your Records On
  12. The Skies Will Break
  13. Like a Star

Hits: 32

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *