B.B. King – muito mais do que “um velhinho gente boa, pacato cidadão”

B.B. King – muito mais do que “um velhinho gente boa, pacato cidadão”

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terça-feira, 08 março 2016
Culturall

Por Luiz Antonio Mello – Participei de três entrevistas coletivas de B.B. King no Brasil, duas no Rio e uma em São Paulo. Um homem raro porque conseguia conciliar a humildade dos campos de algodão com a sua inquestionável realeza musical.

Longe de fazer o gênero “velhinho gente boa, pacato cidadão”, B.B. King nunca levou desaforo para casa. Nem nos tempos dos campos de algodão em Itta Bena, Mississippi, onde nasceu em 16 de setembro de 1925. Batizado como Riley Ben King, aos 9 anos vivia sozinho e plantava para sobreviver. Perguntei duas, cinco, oito vezes ao longo das entrevistas se ele tinha sofrido maus tratos. Ele jamais respondeu, desviando a conversa.
Contou que jamais esqueceu de uma cena, barra pesada, quando uma roda de dezenas de membros da execrável Ku Klux Klan, que agia livremente até os anos 1960, enforcou um negro. O corpo pendurado, balançando, a euforia dos homens de branco encapuzados, são cenas que B.B. King jamais conseguiu apagar da memória. Ele disse que “naquele momento eu decidi lutar contra aquela monstruosidade, só que à minha maneira”. Em vez de fuzil, faca, B.B. King empunhou guitarras. E venceu! Alguém duvida?

Guitarras que ele, autodidata, tocou à sua maneira, solos curtos, sincopados, como rajadas ríspidas, seguras, amplificadores levemente saturados, uma invenção sua. Ele me disse “um jeito de tocar que tenta exprimir a maior quantidade possível de sentimentos”.

Sentir e tocar. Tocar e sentir. B.B. King teve com a música uma relação que durou toda uma vida e, de fato, nos momentos de solidão aguda (não foram poucos) ele ligava sua Lucille e ficava “tirando o que ela tinha a me dizer…e ela sempre tinha muita sabedoria para me passar”, disse o mestre com um leve sorriso.
Bom lembrar que Lucille foi uma mulher que provocou uma briga entre dois homens num lugar onde B.B. King tocou. No verão de 1949, ele tocou em um salão de dança em Twist, Arkansas. Para aquecer o ambiente, um barril quase cheio de querosene foi aceso, um procedimento bastante comum naquela época.

Durante a performance, dois homens começaram a brigar, esbarrando no barril e espalhando combustível em chamas pelo recinto. Quase todo mundo, inclusive King, correu para fora do lugar. Do lado de fora, King percebeu que tinha esquecido sua guitarra e voltou para o edifício em chamas para recuperar sua amada Gibson 335, de 30 dólares.
Dois homens morreram no incêndio e, no dia seguinte, King descobriu que eles estavam brigando por uma mulher chamada Lucille. Ele então batizou a sua primeira guitarra, assim como a toda guitarra que teve desde então, como um lembrete de nunca mais fazer algo tão estúpido quanto entrar em um prédio em chamas ou brigar por uma mulher.

Numa dessas entrevistas, um colega perguntou sobre a morte. Ele ficou calado, pensou, esboçou um leve sorriso e, jocosamente, disse que não conhecia o assunto e muito menos sabia se iria para o céu ou para o inferno.
Cumprimentou-nos e foi para o palco, seu habitat natural.

Por Luiz Antonio Mello.

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