Rolling Stones: amor à música ou máquina de fazer dinheiro?

Rolling Stones: amor à música ou máquina de fazer dinheiro?

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segunda-feira, 07 março 2016
Culturall

Por Jamari França – Esta última passagem dos Rolling Stones pelo Brasil representou um atestado de vigor e paudurescência de uma banda com 54 anos de carreira. Mick Jagger e Keith Richards podem não ser mais os mesmos amigos íntimos de décadas passadas, mas os dois juntos formam uma unidade megatômica: Jagger na frente domina a massa com a voz de potência inabalada e suas coreografias desconjuntadas e Richards atrás com frases poderosas e desconcertantes, auxiliado pelo coadjuvante Ron Wood, este sempre de olho no master pra complementar a massa sonora.

O trio dá seus voos com o conforto e a segurança de ter por trás não apenas o extraordinário e metronômico Charlie Watts, mas músicos de apoio de altíssima qualidade e experiência, muitos deles com formação e carreira jazzística.

Os Rolling Stones podem até ser dinossauros do rock, mas são Tiranossauros, carnívoros, atacam com tudo, botaram estádios em êxtase, de crianças a fãs de primeira hora. São um exemplo de como manter a dignidade, o profissionalismo e a mesma garra de quando conquistaram a América em 1965 com (I Can’t Get No) Satisfaction.

Já foi dito que Mick Jagger é o cérebro e Keith Richards o corpo, ou que Mick Jagger é o corpo e Keith a alma.  Na sua autobiografia, Life, Keith conta que o camarim de Mick fica bem longe do dele e que, há 20 anos, um não vai ao camarim do outro. Esta é a realidade atual da banda. Dois jovens que se encontraram em 1960 no vagão de um trem e se reconheceram porque um deles tinha nas mãos discos de bluesmen americanos, hoje estão unidos pela grana, pelo amor à música ou pelos dois? É uma dúvida minha, que descobri a banda ao ouvir Satisfaction em 1965 numa rádio, provavelmente a Mundial AM.

Os Stones vivem hoje a parte mais lucrativa de sua existência. Em certas apresentações ficam com 60% da bilheteria. A Zip Code tour do segundo semestre de 2015 faturou US$ 109,7 milhões por 17 concertos em estádios. As seis turnês dos anos 2000, excluindo a Ole Tour, faturaram um bilhão de dólares. E à pergunta frequente se cada uma dessas turnês é a última, eles respondem que só vão parar quando não aguentarem mais. E por que deveriam se multidões lotam estádios para vê-los. Mick e Keith estão com 72 anos, Charlie Watts 74 e o caçula Ronnie Wood 68. Não tem mais um grande futuro pela frente, a dama da foice pode pegar um deles a qualquer momento, mas essa dinheirama garante o futuro de suas famílias.

Beatles e Rolling Stones foram a linha dorsal da minha formação rock por ser eu da geração dos anos 60. Igualmente criativos e ousados em estilos musicais diferentes, me deram um norte musical ao qual se agregaram todas as tendências do rock surgidas ao longo dos anos e que acompanhei em tempo real, como se diz agora, no sentido de comprar os discos quando saíram.

Hoje em dia, o sobrevivente dos Beatles que ainda lota estádios, Paul McCartney, e os Rolling Stones são apenas revivals. Paul continua produtivo, seu último álbum, New, é de 2013, mas o material solo é apenas parte menor de seus shows, as multidões querem Beatles e ele se dobra ao vox populi. O último álbum dos Stones é de 2005, A Bigger Bang, mas nenhuma música dele foi tocada na Zip Code Tour e nem na atual, Olé. As 14 canções tocadas em todos os concertos latino americanos são do período 1965 – 1978, a banda se mantém presa ao seu período de maior sucesso.

O que poderia impedir uma banda de se manter atuante com o mesmo pique das primeiras décadas seria a decadência física. Isso não acontece aqui. Quem lê livros sobre a banda sabe que a presença de Keith Richards com aquela disposição toda é um verdadeiro milagre. No começo dos anos 70, quando estava no auge de seu relacionamento com as drogas, ele tinha uma postura niilista: “Quem disse que a gente tem que virar setentão? Não dá pra todo mundo chegar aos 70,” disse ele. Pois é, chegou, ele brinca que já morreram todos os médicos que disseram que ele ia morrer cedo. Não se droga mais, mas ainda fuma quase dois maços por dia de Marlboro filtro amarelo. E trocou o Jack Daniels por algo mais leve: vodka.

Em Life, Keith diz que a energia para tocar num show vem da plateia: “Este é meu combustível. A única coisa que eu tenho para queimar é essa energia, principalmente quando estou com a guitarra nas mãos. Eu fico incrivelmente empolgado quando a plateia se levanta das cadeiras: ‘É isso aí pessoal, se soltem mesmo! Se vocês me derem sua energia eu a devolverei em dobro.’ É como um imenso dínamo ou gerador. É algo indescritível.”  Ele diz que sente vontade de correr na passarela, mas diz que não se toca direito correndo e ele prefere concentrar a banda num lugar central do palco “para fingir que estamos tocando num lugar pequeno.”

Keith revela alguns aspectos técnicos interessantes sobre o show: “Quando se toca em grandes estádios você espera que a música encha o lugar nos primeiros acordes, em vez de soar como o sussurro de um morcego. Algo que você tocou numa salinha de ensaio pode soar fantástico, mas num palco enorme o som lembra três ratinhos presos numa ratoeira. (…) Quando Mick se afasta da banda e desce alguma rampa, não se pode confiar que esteja escutando o mesmo que nós, a velocidade pode estar defasada por apenas uma fração de segundo, mas, se não compensarmos,  já era. A banda precisa estar hipersincronizada para mudar a ponto de fazer o Mick cantar no tempo certo.” Ele diz que isso pode acontecer algumas vezes num concerto sem que o público perceba.

O que o tempo parece ter corroído de vez é a criatividade. Lançaram álbuns em 1994 (Voodoo Lounge), 1997 (Bridges To Babylon), um intervalo razoável de três anos. Depois só 2005 A Bigger Bang e, em dezembro de 2015, começaram a gravar um novo álbum. E nenhum lançado tem o nível dos grandes discos do passado, embora não façam vergonha à banda.

Podemos tê-los visto pela última vez se levarmos em conta que 10 anos se passaram até esta volta. Estarão de pé aos 82 anos, Charlie aos 84? Talvez voltem antes, quem sabe. Já foi uma sorte recebê-los em 2016 numa crise com o dólar nas alturas, ingressos elevados, mas lotação esgotada. Valeu o investimento para quem é do rock.

O Presidente Barack Obama e a primeira dama Michelle receberam certa vez uma senhora negra de 106 anos, Virginia McLaurin, na Casa Branca. Quando Obama perguntou seu segredo para chegar a esta idade ela respondeu: “Just keep moving.” É a receita dos Rolling Stones. Ou então, como diz Evandro Mesquita: “Enquanto tiver bambu, tem flecha.”

Fonte: http://www.blogdojama.com.br

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